Sentadas no chão a sentir o ar quente correr, riamos e conversávamos sobres esses príncipes encantados que andam por aí. Ou melhor, os que nós pensávamos que andavam por aí...Parecíamos umas miúdas da primária a divagar sobre quem seria e como seria ''o ideal'', e na altura teve piada.
- É a tua vez, como é que ele era?
Engasguei-me um bocado, sabia como o fazer, mas não queria.
- Era como tentar deitar o oceano todo dentro duma chávena de café. É difícil e impossível.
Olhaste para mim e pensaste que isto era apenas uma semente de um sonho. E tiveste razão.
Passado uns tempos descobri que: ''ás vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo abaixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeira momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e casa desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora. Ás vezes é preciso renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio e paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer e amar. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza de que fizemos bem e não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer.''
Vai ser nesse dia que vamos perceber que não há príncipes encantados.
