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''Chocolate'' de Joanne Harris




''Acredito que ser feliz é a única coisa importante - disse-lhe finalmente.

Felicidade.

Tão simples como um copo de chocolate, tão tortuosa como o coração.

Amarga. Doce. Viva.''

Só para mim

Nunca pensei que o fim de um grande amor pudesse vir a ser tão ingrato.
Para mim, aliás, só para mim, é que não era um passatempo, uma brincadeira ou diversão.
Quantas vezes te disse que te adorava? Que para mim, e, mais uma vez, só para mim, eras muito importante, de um valor difícil de explicar? Foram muitas, eu lembro-me.
Mas, já António Lobo Antunes dizia que ''o coração quando se fecha faz mais barulho do que uma porta'', e é bem verdade.
Estávamos em Outubro, ainda estava um Sol bastante agradável que já fazia sentir as saudades do Verão e tempo de praia, quando resolveste ser sincero.
Para mim, e, sim, outra vez só para mim, só na minha cabeça, só no meu coração, só por causa desta cegueira, obsessão, estupidez, chama-lhe o que quiseres, é que tu tinhas sido sempre sincero, eu sempre pensei que sim.
Afinal não. Estavas calmo, com uma serenidade estranha, embora ao mesmo tempo me parecesses um tanto ou quanto nervoso. Veio a conversa do costume, tipo aquela que se vê nos filmes e que toda a gente entende que é treta.
Quis ouvir-te, perceber o que se passava dentro da tua cabeça. Mentira, não era o que se passava dentro da tua cabeça que eu queria saber, era o que se passava dentro do teu coração.
Mais ou menos uma meia hora foi o tempo que demoraste. Um conjunto de soluços, falta de confiança em ti próprio mas mesmo assim querias parecer determinado.
Julgavas que eu não iria dar por ela, mas como já expliquei, tu para mim nunca foste um passatempo ou uma brincadeira, tu eras TU, completo para mim, com todos os teus defeitos (que sempre eu fiz por suportar, e não me arrependo), com toda a tua maneira de ser que sempre me deixou deliciada, e eu conheço-te bem.
Acabaste de dizer tudo o que tinhas ensaiado, essa foi uma das coisas que notei, mas mesmo com tudo na ponta da língua, enquanto estavas em frente ao espelho, ali, perante mim, saíste-te mal.
Sinceramente, já andava á espera desta conversa, ''a conversa''.
Consegui perceber que para ti não dava, não querias, não tinhas paciência, e vivias no teu mundo, onde só tu existias.
Quer acredites ou não, desde esse dia ainda não voltei ''á nossa esplanada'', onde tudo isto aconteceu, onde tudo começou.
Lembro-me que me levantei, não te disse uma única palavra, e percorri a beira-Tejo o resto do dia.
Quando cheguei a casa, abri o livro que me tinhas oferecido no meu aniversário, numa página ao acaso, e no segundo parágrafo li: ''só há uma forma de prender aqueles que mais amamos: largá-los, deixá-los ir para onde eles quiserem, que se gostam de nós voltam sempre.''
Para mim, foi o suficiente, mas só para mim.

A escolha


Nunca se pensa o que se devia pensar e nunca se diz sequer o que se pensa. A verdade é que as palavras (certas) são bonitas, mas são ainda mais quando se dizem.
E há gente, como eu, que diz o que pensa, que acha que consegue mudar o mundo com um pequeno gesto e eu acabei de fazer o meu, porque a vida é uma escolha infinita de coisas e eu escolhi-te a ti.