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Eu não sei quem te perdeu, P.A

Quando veio, mostrou-me as mãos vazias, as mãos como os meus dias, tão leves e banais.
E pediu-me que lhe levasse o medo, e eu disse-lhe um segredo: ''Não partas nunca mais!''.
E dançou, rodou no chão molhado, num beijo apertado, de barco contra o cais.
E uma asa voa, a cada beijo teu, esta noite sou dono do céu, e eu não sei quem te perdeu.
Abraçou-me como se abraça o tempo, a vida num momento, em gestos nunca iguais.
E parou cantou, contra o meu peito, num beijo imperfeito, roubado nos umbrais.
E partiu sem me dizer o nome, levando-me um perfume de tantas noites mais.
E uma asa voa, a cada beijo teu, esta noite sou dono do céu, e eu não sei quem te perdeu.

Pequenos nadas


Voltando á conversa do costume, descobre-se que o verdadeiro amor é omnipresente e omnipotente, mas nunca se cansa nem nunca se ausenta, nunca se paga nem subtrai. Só suspira ás vezes, para ganhar forças e seguir caminho. É este amor raro, secreto, mágico e perfeito que nos torna felizes, sempre, apesar de tudo e acima de tudo. E o resto, são pequenos nadas que pertencem ao mundo dos comuns mortais.

Querem mesmo ?

'' Será que as pessoas querem mesmo saber como estás quando te perguntam se estás bem? Ou estão apenas a ser bem-educadas?
Da próxima vez que perguntarem irei responder que me chateia sempre que alguém diz que o tempo cura as coisas, quando, ao mesmo tempo, também me dizem que a ausência faz o coração amar mais, o que realmente me confunde, porque isso significa que há quanto mais tempo tiveres partido, tanto mais eu te quero.
Irei-lhes dizer também que nada cura nada e que cada manhã em que acordo na minha cama vazia é como se tivesse esfregado sal nas feridas que estão por curar.''

Terceiro acto.


Todos os filmes e todas as histórias te imploram que aguardes por ela : a reviravolta no terceiro acto.

Ser ou estar ?

Uma vez, tal como das outras todas, fora me dito: « Não tens de ter uma cara corajosa o tempo todo, sabes? ».
Eu calculava que era possível a qualquer pessoa amar qualquer pessoa, era essa a grande ''coisa'' acerca do amor: vinha em todos os tamanhos, formas e temperamentos.
Foi então que reparei que os brasileiros usam o verbo ''ser'' ligado á paixão. Eles dizem « Sou apaixonado por você» para distinguir de « Estou apaixonado », é lindo não é ?
Contudo, há momentos em que todos sonhamos com uma outra espécie de amor, aquele que é livre e leve, simples mas forte.
Mas esse mesmo amor, pode ser outra vez aquele monstro a acordar, a mexer-se na imensidão emaranhada do passado, pronto a engolir o tempo e a fazer estragos de grande porte.
Apesar disto, dizem que acaba por passar.
J.

Diz-se por aí

Dizem eles que amam. Dizem.
Quando ele existe, o amor, é fácil de perceber, não tem de ser uma obsessão pela pessoa de quem se gosta, basta dar e receber, dar e receber, dar e receber.
Dar e receber, carinho, atenção e tudo mais, e não podemos criticar a palavra ''amor'' só porque um relacionamento não deu certo e não teve o final feliz que fora desejado.
Esse amor não é dizer que se gosta desta ou daquela pessoa, gostar, gostamos nós todos, amar, ama-se só uma pessoa.
E quando se ouve dizer: « Gosto deste fulano porque tem estas e aquelas qualidades », desconfio sempre.
Não se ama pelas qualidades, nem por isto ou por aquilo. Ama-se.
E sobretudo ama-se apesar deste ou daquele defeito que ás vezes até podem ser um espinho na nossa vida. Mas, para quem ama, um pequeno espinho é sempre reduzido á sua verdadeira insignificância e nunca se deixa que ele se transforme num problema.
Contudo, quando este amor verdadeiro, aquele que se alimenta de pequenos nadas, palavras carinhosas, beijos e sorrisos, projectos e promessas não existe, mas mesmo assim ainda há esperanças que nos vão fazendo acreditar, mais vale desistir. Deixá-lo ficar onde parou e lembrar apenas as coisas boas.
Afinal o que é amar senão sonhar, proteger, dar a mão quando é preciso e soltá-la quando assim tem de ser?
E ás vezes, quando ainda não ganhaste a coragem de o fazer, de deixar esse amor para trás, porque é isso que é melhor fazer, mais vale saberes e acreditares que acabou tudo do que viveres com as laranjas todas no ar, qual malabarista exausto, sem saberes nem como nem quando vão elas cair.
J.